Cinecartaz

Carla Quintas

Porto

Cortar no argumento para ganhar na intensidade talvez tenha sido a estratégia de Klinger. Porém, se há coisa que não se pode dizer de Porto é que seja um filme intenso, capaz de despertar emoções fortes no espectador.
Concorre para tal, em primeiro lugar, a limitação e pobreza dos diálogos que penalizam quer a fundamentação da história, quer a configuração dos protagonistas, a quem falta profundidade e veemência (não tanto na vivência do encontro romântico, mas no que o antecede e precede, as dores individuais de Jake e Mati).
A veemência colocada no encontro é outra questão. Ela está lá, mas não convence. Nada na expressão esforçada de Lucie Lucas denota a loucura e a paixão que a sua personagem diz (dizer, é mesmo necessário!) ter, respetivamente, vivido e estar a viver. Anton Yelchin, pelo contrário, é todo ele emoção e sentimento. Mas um só apaixonado não faz a felicidade de um amor, nem que este dure apenas noite, como é o caso.
A estrutura fragmentada e em vai-e-vem do filme, se, por um lado, não lhe retira lógica e joga até a seu favor (seria, nesta história, insuportável assistir a uma narrativa linear), por outro lado, trai-se a si mesma, ao cair no erro de repetir cenas por tempo excessivo, para aborrecimento do espetador.
O que não desilude, pelo menos a quem não se comprazeria com um filme-postal, são os ambientes e espaços, captados com uma enorme sensibilidade estética e perfeitamente enquadradores da ação e do seu tempo.
Definitivamente, Porto não alimenta alma. Dá para matar uma sexta-feira à noite…

Publicada a 28-10-2017 por Carla Quintas