Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

4 estrelas

"Paterson" é um filme sobre Paterson, o nome do protagonista (desempenhado de forma sublime por Adam Driver), bem como da cidade onde este vive (estado de New Jersey), e ainda o título do poema favorito de Paterson (do omnipresente William Carlos Williams, o seu deus literário).
E perguntam vocês: "O homem e a cidade em causa são interessantes? Para terem a honra de serem "biografados" ...". Ao que respondo: "Nem um pouco! A cidade é decrépita! Ele um monocórdio e apático motorista de autocarros, cuja rotina diária se resume a acordar às 6.15 horas, tomar o pequeno almoço, guiar o autocarro, almoçar sozinho num banco de jardim, voltar a pé para casa, jantar com a (excêntrica e desmiolada) mulher, dar um passeio nocturno com o cão - durante o qual aproveita para beber uma cerveja no mesmo bar de sempre - ... e entre "tudo isto" vai escrevendo poemas". E a película narra-nos (quase na íntegra) esta micro-história, ao longo de 113 minutos, divididos em sete capítulos (tantos quantos os dias da semana - período em que seguimos os passos do "dito cujo", numa sucessiva repetição dos eventos citados, sem quaisquer surpresas ou reviravoltas drásticas).

Neste momento, perante esta descrição, já estão a pensar: "Tendo em conta enredo simples e anti-dramático, sem qualquer clímax (nem sequer existe um personagem vilão - ok, o cão não é boa rês!), explanado através de uma estrutura narrativa rígida e cíclica, por certo, este filme não passa de uma monumental chatice."
Não podem estar mais enganados, o Jim JARMUSCH, no seu estilo "zen e sem pressas", e recorrendo a um humor discreto e subtil (combinando eficazmente as inúmeras repetições e as pequenas excentricidades), consegue extrair brilho/magia do mundano, bem como observar os mais ínfimos pormenores sobre diferentes prismas e, deste modo, brindar-nos com PURA POESIA. Na verdade, Paterson é uma autêntica aventura de palavras e de versos sem rimas (ilustrados através de um primoroso trabalho de fotografia). Em suma, UM GRANDE FILME SOBRE "PEQUENAS" COISAS (a beleza da simplicidade!).

Publicada a 05-07-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA