Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

5 estrelas

Do realizador Park Chan-wook (do qual apenas visionei o excelente "Old Boy") espera-se violência sádica a rodos e, consequentemente, litros de sangue a esguichar por tudo quanto é sítio, mas eis que com o seu mais recente filme ("A Criada") consegue surpreender ao brindar-nos com um lírico thriller/romance de época erótico (lésbico) - não totalmente isento de violência, como seria expectável.

A acção decorre na Coreia ocupada pelo Japão nos anos 30 do século XX e tem por base a história de amor entre a solitária sobrinha de um autoritário milionário burguês e sua criada (uma vigarista recém contratada que tem por objectivo inicial convencer a patroa a casar com um alegado conde). Esta síntese, à partida, poderá até nem ser apelativa e, inclusive, soar a algo novelesco e cliché. Todavia, tal pressuposto não pode estar mais longe da realidade, e isto porque que a narrativa não é desenvolvida de modo linear, vai sendo desconstruída e (re)montada conforme os diferentes períodos do tempo (o filme está dividido em 3 actos) e mediante as perspectivas das diferentes personagens (e entrando no seu íntimo através de inúmeros retornos ao passado), pelo que existem inesperadas reviravoltas no enredo (num constante jogo de espelhos, que nos mantém em suspense até ao desfecho, afinal tudo é uma eterna mentira ... aparentemente!).

A película é esteticamente deslumbrante (combinando na perfeição a sublime estética nipónica com os estilos gótico e barroco), constituindo-se como uma sucessão de "autênticos quadros vivos". A fotografia merece todos os elogios possíveis, e, curiosamente, a ambiência que cria vai-se alterando ao longo dos 3 capítulos (à medida que evolui de um registo idílico para o bizarro).

Publicada a 02-04-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA