Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Diálogo

A ficção científica tem estado presente em toda a História do Cinema. Bastará recordar a pioneira e icónica “A Viagem à Lua” de Georges Meliès.

Com o evoluir da técnica e, principalmente, da maturação ao nível da narrativa cinematográfica, a temática evoluiu para duas abordagens distintas: uma mais metafísica e outra mais ligada ao cinema de aventuras. E foi por meados da segunda metade do século vinte que apareceram dois filmes que acabaram por se tornar as referências desses sub-géneros: “2001 – Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick (1969) e “A Guerra das Estrelas”, de George Lucas (1977). Os novos “O Primeiro Encontro” e “Rogue One: Uma História de Star Wars”, enquadram-se nesta dicotomia.
O mais recente episódio da saga onde os dois lados da Força combatem entre si não traz nada de novo. Cronologicamente, situa-se imediatamente antes do filme seminal (agora “Episódio IV”) e conta a história da obtenção dos planos de construção da Estrela da Morte. É uma aventura linear, sem estar preocupada em acrescentar o que quer que seja à rica simbologia da saga “Star Wars”. Novamente a aposta numa heroína, em duelos junto a precipícios, combates espaciais, tudo como nos westerns… No final, não passa dum bom divertimento, o que não tem nada de mal, como é evidente.

Já “O Primeiro Encontro”, ou “Arrival” no original, é um filme com alguma profundidade. Num determinado momento, doze naves alienígenas descem sobre o nosso planeta e permanecem imóveis, sem mostrarem qualquer reacção ou procurarem contacto, até que permitem o acesso ao seu interior. Uma vez lá a comunicação não acontece, pelo que os diversos países recorrem a linguistas. É aqui que aparece Louise, uma especialista americana na área, que juntamente com um físico, Ian, acabam por descodificar a linguagem conceptualmente diferente dos extraterrestres... Mas enquanto Louise tenta decifrar as mensagens e o porquê de serem doze naves e não apenas uma, os líderes militares começam a sentir-se ameaçados e movimentam-se para um embate bélico.
O contacto com civilizações alienígenas, que nos pretendem visitar sem qualquer intenção de domínio, não é novo. A abordagem de “Arrival”, pondo a questão no domínio estrito da comunicação, é que é nova. Porque é ali que está a chave de tudo, do entendimento entre todos, não só entre todos os seres humanos como entre estes e os que estão espalhados pelo Universo. A dimensão final daquilo que os extraterrestres deixam à raça humana é quase impossível de captar atentas as nossas próprias limitações e a brutal alteração da percepção da realidade que isso implicaria. Mas não deixa de nos fazer pensar em como nos perdemos em quezílias e problemas que, uma comunicação a um nível mais profundo, possibilitaria.

No seu melhor filme, “Incendies - A Mulher que Canta”, de 2010, Villeneuve viajava até ao passado para perceber o presente. Aqui, em “O Primeiro Encontro”, questiona a nossa percepção de tempo. Sem estar ao nível de obras-primas como “Solaris” de Andrei Tarkowski ou outras, mais recentes, como “Interstellar”, de Christopher Nolan, o realizador canadiano consegue mais uma vez tocar no imaterial, naquilo que está para lá da nossa existência sensorial. E isso não é fácil. Mas, verdade seja dita, a ideia só funciona graças a Amy Adams, que compõe uma Louise onde a fragilidade emocional e a determinação profissional se vão equilibrando. Uma boa proposta, a comprovar que o cinema ainda continua a manter a capacidade de nos fazer pensar e sonhar – “dos 7 a os 77 anos”.

Publicada a 18-01-2017 por Pedro Brás Marques