Cinecartaz

Raúl Reis

Pentear macacos

Já durante o festival de Cannes foi assim: uns adoraram e outros detestaram. Quando, naquele dia de domingo, os jurados, com Tim Burton, à cabeça, se reuniram para escolher o melhor filme do festival de Cannes, as opiniões não mudaram sobre o trabalho de Apichatpong Weerasethakul. O simpático tailandês – cohecido por Jo - faz parte da lista bastante limitada de realizadores que sempre que fazem um novo filme recebem um convite para participar no festival de Cannes. Os seus anteriores trabalhos passaram pela Croisette e até mereceram prémios. Weerasethakul tem amigos na organização. Em 2010 ainda teve mais do que o costume: Tim Burton como presidente do júri da competição oficial adivinhava-se como um fã do estranho filme “O Tio Boonmee Que se Lembra das Suas Vidas Anteriores”. As descrições deste filme polémico passearam-se entre elogios de brilhantismo, apelos à beatificação de Apichatpong Weerasethakul e críticos a dizerem que alguém nos andava a dar tanga mostrando-nos animais com olhos vermelhos e cenas de sexo com cheiro a peixe. Vejamos o que disseram os senhores que gostaram do filme tailandês. Um senhor dizia que “Tio Boonmee” é um dos filmes mais inventivos e bonitos de sempre. Talvez se denote um bocadinho de exagero. Mas outros acrescentaram que toda a película era uma melodia de poesia visual que emerge quase sem se sentir de imagens imbuídas de singular modernidade. Nem mais. Outros críticos sentiram-se mais tocados pelo aspecto antropológico do filme, admirando a magnífica descrição das forças da natureza e a explicação da cultura animista do país do realizador. Um verdadeiro documentário da National Geographic. Mas vamos continuar a ouvir quem parece que sabe. Misticismo é o termo utilizado pela maioria dos críticos que gostaram de “Tio Boonmee”, e que explicam que o segredo está na forma como o realizador utiliza os cenários. Houve mesmo quem dissesse que os actores comunicam muito com os cenários (sem explicar como). Ah e depois temos a natureza. Uma natureza omnipresente que é também o protagonista, dizem outros críticos. Que bom ver um filme asiático longe das metrópoles e dos bordeis, acrescentam. Acho que andam a ver os filmes errados. E quase que esquecíamos as reencarnações e as transmigrações das almas. Se o realizador mostrou como isso podia acontecer, os críticos deleitaram-se a explicar o fenómeno com expressões como “magia” e “falsa ingenuidade”. Falsa? E afinal qual é a história de “Tio Boonmee”? O protagonista, o tio Boonmee, sofre de insuficiência renal. Como é um praticante experiente de ioga, Boonmee vai sentir que a morte o espera. Mais. Que não tem mais que 48 horas de vida. Resolve então fazer apelo a uns parentes para que estes o tirem do hospital. Boonmee quer morrer em sua casa. Lá serão acolhidos pelo fantasma da sua defunta esposa que está ali para tratar dele. Mas o filho aparece também, saído da floresta, reencarnado em macaco. Depois há coisas que eu não percebi. Aliás, se não tivesse lido as sinopses e ouvido as entrevistas de Apichatpong Weerasethakul, não tinha percebido grande coisa. “Tio Boonmee” é um filme ancorado numa cultura bem específica que eu desconheço. Talvez por isso eu não goste. Talvez eu seja fechado a outras culturas. Talvez eu seja impermeável à novidade. Ou talvez o filme não seja tão bom como o pintam.

Publicada a 04-04-2011 por Raúl Reis