Cinecartaz

Luis Coelho

A podridão e a toxicodependência

O mundo da toxicodependência é perfeitamente retratado em "No quarto da Vanda". Este mesmo retrato não é, de forma alguma, tendencioso. Quem vir o filme concordará, quase de certeza absoluta, com a ausência de parcialidade da parte do realizador na concepção do mundo subversivo das drogas e do modo de vida da "geração rasca".
"No quarto da Vanda" é, essencialmente, uma efígie realista, construída sobre elementos de prolixa criteriosidade. A realidade aparece, neste filme, completamente despida de preconceitos ou estereótipos. O filme não pretende, segundo a minha opinião, passar uma mensagem precisa. Pretende, essencialmente, abalar os pilares das nossas crenças e os componentes dos nossos valores.
Pretende construir uma noção de realidade: a realidade de quem vive no seio da podridão dos bairros degradados, a realidade de quem erra no destino fétido da miséria dos bairros de lata e a realidade de quem escolheu o mundo da droga. Após termos visto este filme, pensamos duas vezes antes de apontarmos o dedo àqueles que são, geralmente, alvo das inexauríveis discriminação e estigmatização sociais. Não que os toxicodependentes passem a ser inocentes. Porém, não são os únicos culpados da sua condição de degredo social; o contexto social e as circunstâncias também têm que ser perspectivadas. "No quarto da Vanda" aponta para a realidade destes últimos aspectos.

Publicada a 18-01-2003 por Luis Coelho