Cinecartaz

Rita (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)

Entre o público e o privado

A acção de "The Queen" desenrola-se na semana seguinte à morte da princesa Diana no Verão de 1997. Stephen Frears ("Mrs Henderson Presents") centra a sua atenção em dois dos actores deste episódio, a rainha do trono britânico Elizabeth II (Helen Mirren) e o primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen), que tinha à data dos acontecimentos sido eleito pelo Partido Trabalhista. Sob o olhar detalhista de Frears está não só a relação entre eles, como também a relação com o seu povo, no caso da rainha, e com o seu eleitorado, no caso de Blair, perante um acontecimento privado com claras dimensões políticas, e onde os media desempenham um importante papel (daí o uso das imagens de arquivo). Diana estava privada do estatuto real devido ao divórcio do Príncipe Carlos (Alex Jennings), por isso o protocolo ditava um funeral privado. Sem compreender a dimensão emocional que a morte de Diana tem sobre o povo inglês, a rainha decide então refugiar-se em Balmoral para proteger a privacidade dos netos, sem haver qualquer comunicado da casa real expressando o lamento pelo sucedido. Perante a pressão dos media e da população, Blair decide ajudar a rainha a salvar-se dela mesma.

A popularidade da rainha desce aos seus valores mínimos, enquanto a de Blair dispara, muito devido ao discurso proferido no qual se refere a Diana como a "princesa do povo". Este contraste entre um político modernista e um rainha tradicionalista, cujo mútuo cepticismo passa a um mútuo respeito, é reforçado pelo contraponto entre os dois lares.

Mesmo sem poder avaliar o quão perto esta história possa estar da realidade, o argumento de Peter Morgan consegue ser totalmente verosímil. Stephen Frears filma "The Queen" com extremo respeito, com sensibilidade e com a dose adequada de humor. Este é um filme de conflitos e equilíbrios, entre um, entre a vida privada e a vida pública, entre um ícone e o ser humano que está por trás dele e que é forçado a mostrar a sua máscara pública em todos os momentos.

Um filme de actores, como este é, deve grande parte do seu sucesso ao seu naipe de actores. E "The Queen" conta com extraordinárias interpretações. Michael Sheen ("Kingdom of Heaven") é completamente revigorante e apaixonante neste retrato de um homem no qual são depositadas todas as expectativas de uma nação. Hellen Mirren ("Gosford Park") é deslumbrante, entre a frieza e a fragilidade, com uma forte expressividade aliada a uma delicada subtileza e o seu extremo auto-controlo dando um enorme peso a cada contracção facial. Nos secundários o apoio é dado por Helen McCrory como a sarcástica anti-monáquica Cherie Blair, Sylvia Syms como uma surpreendentemente divertida Rainha Mãe e James Cromwell no papel de um intransigente Príncipe Philip.

Ao mesmo tempo que humaniza a monarquia (do qual o episódio simbólico do veado é o ponto chave), Frears mostra o quão afastada ela se encontra das preocupações dos seus súbditos. Movendo-se agilmente nos bastidores, Frears levanta a questão da relevância da monarquia na sociedade actual e até que ponto um líder deve ser igualmente um seguidor. Nota: 7,5/10.

Publicada a 11-12-2006 por Rita (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)